anaflaviamartinspsicologa.com.br

Por que a virada de ano parece um recomeço para o cérebro humano?

Psicologia, neurociência e o significado dos ciclos de tempo

Por Ana Flávia Rodrigues Martins – Psicóloga

Resumo do artigo: A virada de ano costuma ser vivida como um recomeço, mesmo sem qualquer mudança objetiva no tempo. Este artigo explora, a partir da psicologia e da neurociência, como o cérebro humano organiza o tempo, atribui significado aos ciclos e por que marcos temporais ativam sensação de fechamento, motivação e expectativa. Um texto alinhado à Psicologia Baseada em Evidências, sem explicações metafísicas.



Do ponto de vista objetivo, nada extraordinário acontece na virada do ano. O planeta continua sua trajetória, o tempo físico segue contínuo e o dia 31 simplesmente dá lugar ao dia 1º. Ainda assim, para muitas pessoas, esse momento é vivido como um marco simbólico poderoso: um encerramento seguido da sensação de novo começo.

Essa experiência não é fruto de ingenuidade, nem de pensamento mágico. Ela está profundamente relacionada à forma como o cérebro humano percebe o tempo, organiza a experiência e atribui significado à vida.

Este texto propõe uma possível compreensão desse fenômeno a partir da psicologia e da neurociência, de maneira compatível com a Psicologia Baseada em Evidências (PBE) e sem recorrer a explicações metafísicas. Trata-se de tendências observadas em pesquisas e na prática clínica, que podem variar entre indivíduos e contextos, não de verdades universais.


O tempo psicológico e a experiência humana

O cérebro humano não vivencia o tempo como uma linha infinita e homogênea. Para conseguir lidar com a complexidade da experiência cotidiana, ele organiza o fluxo do tempo em unidades compreensíveis: episódios, fases, ciclos, começos e finais.

Essa forma de organização permite construir narrativas pessoais, aprender com experiências passadas e planejar o futuro. Sem essa segmentação, seria difícil atribuir significado às vivências ou perceber continuidade entre diferentes momentos da vida.

Importante destacar que estamos falando aqui da experiência psicológica do tempo, ou seja, de como ele é vivido, percebido e interpretado pelo indivíduo — e não de definições teóricas de outras áreas do conhecimento.


Ciclos naturais e organização interna

O ser humano vive imerso em ciclos.

O sol nasce e se põe. O corpo alterna entre vigília e sono. A energia oscila ao longo do dia. As estações do ano apresentam mudanças claras de temperatura, luminosidade e comportamento social.

Essas marcações externas ajudam a criar previsibilidade. O cérebro humano responde muito bem a padrões regulares, pois eles reduzem incertezas e facilitam a adaptação ao ambiente.


Marcos temporais e sensação de fechamento

Marcos temporais como aniversários, inícios de semana, mudanças de mês e a virada do ano, podem funcionar, para alguns indivíduos, como pontos de organização psicológica.

Eles permitem que o cérebro:

  • faça balanços do que passou
  • organize memórias
  • diferencie fases da vida
  • construa expectativas sobre o futuro

A sensação de “fechamento” é especialmente importante. Encerrar simbolicamente um ciclo ajuda a reduzir a carga emocional associada a erros, frustrações e pendências. Isso não apaga o passado, mas muda a forma como ele é integrado à narrativa pessoal.


Emoção, memória e significado

Eventos emocionalmente carregados tendem, em média, a ganhar mais relevância para o cérebro. A virada de ano, em muitas culturas, é acompanhada de rituais, encontros, expectativas, retrospectivas e projeções.

A presença de emoção favorece a consolidação de memórias e intensifica a sensação de significado. Quanto mais emocionalmente marcante é um evento, maior a probabilidade de ele ser vivido como algo especial, mesmo que, objetivamente, nada extraordinário tenha ocorrido.

Assim, o ano novo se transforma em um ponto simbólico forte não pelo que ele é em si, mas pelo conjunto de emoções, narrativas e expectativas que o acompanham.


O efeito psicológico do “recomeço”

Quando o cérebro percebe um marco como um novo início, pode ocorrer uma reorganização da identidade narrativa. O “eu do passado” e o “eu do futuro” passam a ser percebidos como menos sobrepostos.

Isso pode gerar:

  • aumento momentâneo da motivação
  • maior sensação de controle
  • disposição para rever hábitos
  • abertura para novas escolhas

É importante destacar que esse efeito não garante mudança sustentada. Ele apenas cria uma janela psicológica favorável. A transformação real depende de processos consistentes, escolhas repetidas e condições ambientais adequadas.


O risco do pensamento mágico

Embora o sentimento de recomeço seja compreensível e legítimo, ele pode se tornar problemático quando associado à ideia de que a mudança ocorrerá automaticamente, apenas pela passagem do tempo.

Do ponto de vista clínico, é importante diferenciar:

  • significado simbólico, que pode ser útil
  • expectativa irrealista, que tende a gerar frustração

O calendário não muda comportamentos. Pessoas mudam comportamentos.


Uma leitura clínica possível

Em contexto terapêutico, a virada de ano pode ser trabalhada como:

  • um convite à reflexão
  • um ponto de organização narrativa
  • uma oportunidade de contato com valores
  • um momento de avaliação de padrões de comportamento

Sem promessas de recomeços absolutos, mas com espaço para escolhas mais conscientes.

A sensação de que o ano novo representa um recomeço não é ingênua, nem mística. Ela emerge da forma como o cérebro humano organiza o tempo, responde a ritmos e constrói significado.

O tempo não se reinicia. Mas a maneira como nos relacionamos com ele pode mudar.

E, muitas vezes, é exatamente aí que começa qualquer transformação possível.

Leitura recomendada para: pessoas interessadas em psicologia, pacientes em processo terapêutico e leitores que buscam compreender o comportamento humano com base científica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *