Imagine a cena: você acaba de encerrar uma reunião importante, entregar um projeto complexo ou receber um elogio sincero de alguém sobre algo bom que você fez. Por alguns segundos, você respira em sinal de alívio. Mas, logo depois, sente uma sensação estranha. Em vez de celebrar ou simplesmente relaxar, a sua mente começa a sussurrar: “Dessa vez passou, mas foi sorte”, “Eles só elogiaram porque querem ser gentis” ou “Se eles soubessem o quanto eu me enrolei para fazer isso, não pensariam assim”.
Ou talvez você reconheça que algo que fez foi realmente bom. No início, você quer comemorar, devido ao próprio reconhecimento, mas essa festa toda não dura muito, pois logo em seguida você começa a desqualificar os próprios feitos.
Se você conhece de perto essa sensação, saiba que você não está só. Viver com a constante impressão de que a qualquer momento, alguém vai tocar no seu ombro e dizer que descobriu que você não é tão boa assim é uma das experiências mais solitárias e exaustivas que existem. É o que frequentemente chamamos de sentir-se uma fraude, ou impostor. Vamos falar sobre isso?
O cenário perfeito por fora, o caos por dentro
Muitos olham para a sua trajetória e enxergam competência, dedicação e resultados. As pessoas te procuram para tirar dúvidas, confiam nas suas decisões e admiram a forma como você conduz as suas responsabilidades. No entanto, existe um abismo enorme entre o que os outros veem e o que você realmente se sente.
Para quem se sente uma impostora, o sucesso não traz segurança; traz mais pressão. É como se cada nova conquista aumentasse a altura do pedestal onde colocaram você e, consequentemente, o tamanho da queda que você imagina que vai levar.
O grande truque da nossa mente nesse processo é a facilidade com que ela justifica as coisas boas. Se algo dá errado, a culpa é sua, da sua incompetência e da sua falha. Mas se algo dá certo? Ah, se dá certo foi porque o prazo era amigável, porque foi sorte, porque a outra pessoa estava de bom humor ou porque o universo conspirou a favor. O crédito nunca é seu.
A engrenagem oculta: a exaustão como escudo
Para sobreviver a esse medo constante de ser “descoberta”, você provavelmente desenvolveu um método de defesa: tentar provar sua (in)capacidade.
Como a dúvida sobre a sua capacidade é constante, você passa a operar no limite. Você revisa o mesmo texto muitas vezes antes de enviar. Trabalha além do horário para garantir que não haja nenhuma brecha para críticas. Centraliza as tarefas porque delegar parece arriscado demais. Ou… você trava. Procrastina, deixa sempre pra depois e não por preguiça.
O problema é que esse comportamento cria uma armadilha perfeita. Quando o projeto é um sucesso, a sua mente rapidamente conclui: “Viu só? Só deu certo porque você trabalhou até a exaustão e não dormiu direito”; “Se você tivesse passo o projeto para fulano, não daria certo” ou no caso da procrastinação: “Se eu continuar deixando pra depois, não terei que lidar com meu fracasso no final”. O resultado prático disso é que o descanso passa a parecer perigoso. Você se convence de que, se relaxar um pouco, a fraude aparecerá. A exaustão vira o preço que você paga para manter o disfarce de pé.
Não se trata de falta de capacidade, trata-se de proteção
É importante entender que sentir-se assim não significa que você é incompetente. Na verdade, costuma ser o oposto: esse fenômeno é incrivelmente comum entre pessoas altamente dedicadas e que se importam profundamente com o que fazem.
A prioridade da nossa mente é a sobrevivência e ela detesta a ideia de sermos rejeitados ou falharmos. Para tentar nos proteger do desconforto do erro, ela cria regras rígidas e um nível de exigência cruel. Ela nos diz que precisamos ser perfeitos para estarmos seguros. Mas a perfeição é uma linha de chegada que se move cada vez que damos um passo à frente.
Nós não precisamos lutar contra esses pensamentos para fazê-los desaparecer, e nem precisamos esperar que a dúvida suma completamente para começarmos a viver com mais leveza. A autoconfiança real não é a ausência de medo ou de incerteza; é a capacidade de caminhar e fazer o que é importante para nós, apesar do medo.
Um pequeno passo para hoje
Se você se reconheceu nessas linhas, experimente um exercício simples, mas muito desafiador, da próxima vez que receber um elogio ou concluir uma tarefa:
Apenas diga “obrigada”.
Se você perceber que fez algo bem feito, apenas acolha seu próprio reconhecimento, sem lutar contra ele.
Não tente diminuir o seu feito dizendo que “não foi nada demais”. Não divida o crédito com a sorte. Apenas receba a validação e respire. Deixe que o desconforto de assumir o seu espaço vibre um pouco, sem tentar se explicar.
Os fatos da sua realidade mostram que você chegou até aqui com o seu próprio esforço, com as suas escolhas e com a sua capacidade de aprender. A sua mente pode até continuar contando a história da fraude, mas você não precisa agir como se essa história fosse a única verdade sobre quem você é.


